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Histórias que divertem e educam
Seg, 19 de Julho de 2010 09:11

    

Chiclete_1Amigos. Vale a pena conhecer o site Família em Contos.

http://www.familiaemcontos.com.br/

É um site dedicado à educação, cultura e entretenimento.
Uma amostra. O conto "Chicletes"

Chicletes

Como o dinheiro lhe é sempre curto, e não dá para satisfazer nem uns poucos caprichos, o Zégas gruda os chicletes mastigados na parte debaixo da gaveta do seu criado-mudo. Tem ali um bom estoque de diferentes cores para desfrutá-los quando de­sejar.

     Com quatro sabores recém selecionados, e em meio à mastigação do seu tuti-fruti, Janaína entra no quarto do irmão e se põe a reclamar com ele que não arrumou a bagunça deixada no quintal com o conserto do carrinho de rolimã, que não limpou a gaiola do papagaio, que não foi buscar verduras para as galinhas na feira de sábado, que isso, que aquilo, que bla, que blé, que bli, que bló, que blu.

     Em meio ao discurso da irmã, o Zégas começa a inflar uma bola de chicletes de causar inveja a qualquer vendedor de bexigas de gás do Parque Ibirapuera. Enquanto a lista de reclamos vai crescendo, crescendo, tal como a bola de goma, a paciência do irmão vai diminuindo, diminuindo até que, cataplá, o pirralho encapuza a enorme bolha de goma na cabeça da irmã.

     Ao não sentir mais os cabelos, Janaína põe-se a berrar como doida, a ponto de ser ouvida na rua, e dispara até a cozinha, onde estão os pais.

     O Zégas aproveita e passa a chave na porta do quarto e fica por ali, certo de que Júlio e Mariana virão forçar a maçaneta para entrar e enchê-lo de sopapos. Esperou, esperou e nada.

     Uma hora depois, o Zégas sai da toca para tomar água na cozinha. Ao passar pelo quarto das irmãs, de soslaio observa a mãe picotando mexas de cabelo da Janaína, fazendo-a parecer a um moleque de cabelos curtos.

     Na cozinha, o Zé cruza o olhar com o pai, e percebe-o silencioso e triste. Bebe água sem dizer palavras e retorna ao quarto. À espera da surra que não vem, ouve variados sons: o choro da Janaína e o da Glorinha, inconformada com o estranho corte de cabelo da irmã; o tique-taque da tesoura nos curtos intervalos de berreiros; as palavras veladas da mãe consolando a filha. O Zégas passa a se torturar; conclui que uma surra logo resolveria tudo, e seria melhor do que o lento confronto com a realidade de que foi causa. Não sai do quarto para o jantar.

     Horas depois do incidente, Júlio penetra no quarto do filho portando uma folha aberta de jornal com os cabelos da Janaína. Diz:

     – Tome, é seu – e retira-se.

     Vendo sobre a cama os cachos castanhos do bonito cabelo da Janaína, o Zégas sente dor atroz, como se ali estivesse a mão decepada da irmã. Ao imaginar que na escola a garota será vítima da crueldade de meninas e meninos, que irão debochar do cabelo dela, decide acompanhar a irmã às aulas e quebrar a cara de qualquer um que se meta com ela.

     Outra meia hora decorre, quando a mãe penetra no quarto e vê o filho com o rosto enterrado no travesseiro, em choro abafado. Então, diz:

     – Filho, nós perdoamos você – e sai.


Conto publicado no livro Famílía em Contos: os Larletos, de Ariovaldo Esteves Roggerio

(Editora Cultor de Livros, São Paulo, 2009), e no site http://www.familiaemcontos.com.br/).