Ruanda. Após o genocídio, testemunho de perdão.
Dom, 26 de Junho de 2011 18:18

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Testemunho

- Irmã. Geneviève UWAMARIYA, Irmã de Santa Maria de Namur (RUANDA)

Compartilho convosco minhas experiência de reconciliação com os presumíveis culpados pelo genocídio. Farei-vos partícipes dos frutos do meu testemunho junto deles e de suas vítimas sobreviventes. Sou uma sobrevivente do genocídio dos Tutsis de Ruanda, em 1994. Grande parte da minha família foi massacrada na nossa igreja paroquial. Ao ver este edifício, sentia-me horrorizada, revoltava-me, e quando me encontrava com os presos, sentia repugnância e raiva. Enquanto vivia neste estado de espírito, aconteceu uma coisa que mudou a minha vida e as minhas relações. No dia 27 de agosto de 1997, às 13h, fui levada por um grupo da associação católica "Damas da Misericórdia divina" a dois cárceres da região de Kibuye, a minha cidade natal, para preparar os presos para o Jubileu do ano 2000. Elas diziam: “Se matastes, empenha-te a pedir perdão à vítima sobrevivente, desse modo, ajudas a libertá-la do peso da vingança, do ódio e do rancor”. Se és vítima, empenha-te a oferecer o teu perdão àquele que te ofendeu; assim o ajudas a libertar-se do peso do seu crime e do mal que tem consigo”. Esta mensagem teve um efeito inesperado para mim e em mim... Depois disso, um dos presos se levantou, com os olhos cheios de lágrimas e caiu em joelhos, suplicando a voz alta: "misericórdia". Fiquei petrificada ao reconhecer um amigo de minha família, crescido conosco, com quem havíamos dividido tudo. Confessou-me que havia matado meu pai e contou-me os detalhes sobre a morte de meus familiares. Um sentimento de piedade e de compaixão tomou conta de mim. Ajudei-lhe a levantar, beijei-o e disse-lhe, em soluços: “Tu eras meu irmão e continuas a sê-lo”. Senti, então, aliviada de um grande peso... Recuperei a paz interior e agradeci a esta pessoa, que ainda estava entre meus braços. Com grande surpresa, ouvi-lo gritar: “a justiça pode fazer seu trabalho e condenar-me à morte, mas agora, sinto-me livre!”. Eu também queria gritar para quem ouvisse: “Vens e veja aquilo que me libertou, tu também podes libertar a recuperar a paz interior!” A partir daquele momento, a minha missão foi percorrer quilómetros, a levar a correspondência dos presos que pediam perdão aos seus sobreviventes. Entreguei 500 cartas; e levava também as respostas dos sobreviventes aos presos, que se transformaram em meus amigos e irmãos... Isto permitiu encontros entre os carnífices e as vítimas. Muitos gestos concretos selaram as reconciliações:
- Os presos construíram um vilarejo para as viúvas e os órfãos do genocídio;
- Também foi erguido um memorial diante da igreja de Kibuye;
- Em várias paróquias, foram criadas associações dos ex-detentos com os sobreviventes, e funcionam muito bem.

Desta experiência, eu deduzo que a reconciliação não significa apenas reunir duas pessoas ou dois grupos em conflito. As pessoas devem vencer o amor e deixar que ocorra a cura interior, que permite a libertação recíproca. Aqui reside a importância da Igreja no nosso país, em sua missão de oferecer a Palavra: uma palavra que cura, liberta e reconcilia.

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