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Visão humanista de um educador
Qua, 23 de Dezembro de 2009 09:12

Dom Lourenço

De acordo com Dom Lourenço, a formação humana é essencial no processo educacional e deve ser tratada, fundamentalmente, no ensino médio. “A preocupação de formar o homem na sua plenitude cabe ao ensino médio. A universidade perdeu o seu caráter universal e hoje está mais voltada para um ensino que forma especialistas”, avalia ele. Se nunca se preocupou com o resultado dos alunos do colégio no vestibular, e sim com a formação humanista a eles ofertada, Dom Lourenço critica aqueles que praticam um ensino voltado para este processo seletivo, afirmando que esta filosofia é uma “deformação perigosa” do termo educação.

 

Para dom Lourenço, o ministro da Educação, demonstra ser, no cotidiano político, Cristovam Buarque uma pessoa sem perspicácia. “Ele é uma pessoa sem descortino”, ressalta, lembrando ainda que há uma diferença entre o sábio e o sabido. E ressaltando que, disputas do vestibular à parte, o papel do ensino médio é formar o sábio.

 

  • Folha Dirigida - Qual é a importância da formação humana no ensino médio?
  • Dom Lourenço de Almeida Prado - Primeiro é preciso pensar que o homem é um animal que tem na sua natureza crescer. A história humana é uma história de progresso. A função da educação não é o aprendizado, e sim criar o saber, aquele saber que faz com que a criatura seja um ser livre. Isto não se obtém mais nas universidades. Então, cabe ao ensino médio esta preocupação. A preocupação de formar o cidadão, de formar o homem na sua plenitude.
  • Folha Dirigida - O sr. disse que a universidade não forma na plenitude. Qual o papel da universidade hoje?
  • Dom Lourenço - Atualmente, as universidades não são mais universidades no sentido da palavra. Na Idade Média, a universidade era aquela que detinha o saber universal. Toda a cultura na ordem da Filosofia, da Literatura, da Psicologia era uma cultura espiritual que estava dentro da universidade. Isto fazia com que a instituição fosse universal. Com o advento do avanço da ciência isso mudou. A ciência não dá cultura, e sim especialização. Hoje o risco que corre a criança é de ser precocemente especializada e, ao ser especializada, ela fica circunscrita aquele ambiente, deixando de aprender coisas necessárias. O ensino superior já é uma profissão. No curso de Medicina os alunos saem médicos, no de Engenharia, engenheiros. A universidade não dá cultura, não dá a formação humana geral. Isto ficou a cargo do ensino médio.
  • Folha Dirigida - O sr. acha que o ensino médio vem cumprindo esta função ou ele está muito focado na aprovação no vestibular?
  • Dom Lourenço - Isto é o que chamo de deformação perigosa. O vestibular começa a preocupar quando interfere no ensino médio. Este foi um problema que enfrentei quando estava à frente do Colégio de São Bento. Tive um professor que achou que deveria ensinar habilidades. Ele queria trazer questões de vestibulares para resolver com os alunos em sala. Isso não é aprender, é habilitar. O aluno tem que conhecer a matéria para ter condições de resolver qualquer problema sozinho. Sou contra treinar para determinados exercícios. A matéria deve ser dada independente de vestibular. Há um programa de ensino médio, que tem como preocupação a formação ampla do cidadão, que deve ser cumprido. Isto, desde que seja feito com seriedade, garante um bom resultado em qualquer vestibular. Quem estuda sabe e, quem sabe, diz.
  • Folha Dirigida - O que sr. chama de “deformação perigosa”?
  • Dom Lourenço - É querer preparar para vestibular. É fazer um ensino médio onde o professor, ao invés de ensinar Matemática, ensina a resolver questões de prova. Neste ponto, a introdução da Redação no vestibular foi um alívio para o ensino médio. Até então, os alunos não se interessavam por fazer Redação. Só queriam aprender o que caía na prova.
  • Folha Dirigida - O ministro da Educação, Cristovam Buarque, chegou a levantar a possibilidade de fazer vestibular apenas com provas de Português e Matemática. O sr. acha que isto prejudicaria o ensino médio?
  • Dom Lourenço - Você citou um ministro que não tem descortino das coisas. O ensino é universalizado. A formação humana não se esgota nestas duas disciplinas, embora elas tenham uma importância ímpar. A crise de vestibular decorre não do concurso ser difícil. A angústia do vestibular é que, de cada mil candidatos, talvez menos de 100 estejam preparados. E eles encaram o concurso como um processo de sorte. Vestibular não é sorte, é questão de estar preparado. O fundamental é ensinar com qualidade.
  • Folha Dirigida - O vestibular prejudica o ensino médio?
  • Dom Lourenço - Na verdade, com todos os seus defeitos, os nossos vestibulares ainda chegam a uma avaliação bastante verdadeira. Pode-se prever, com margem pequena de erro, pelo preparo que levam, quem vai passar, quem não vai. Na procura de preparar para o vestibular, como em todo o processo escolar, aparecem dois caminhos: o verdadeiro aprendizado ou o aparelhamento de “macetes”, isto é, de mecanismos para solucionar os problemas, sem os ter aprendido. A opção pela primeira via, que é a verdadeira, supõe um duplo trabalho ou dois trabalhos que se complementam: aula e estudo pessoal. Contra essa orientação, não raro estimulada pela preguiça pessoal, funciona a mania de aulas particulares e a prática de freqüentar, simultaneamente, uma escola ou cursinho que forma sabidos e não sábios.
  • Folha Dirigida - E qual a diferença entre o sábio e o sabido?
  • Dom Lourenço - O sábio é o que conhece e que, diante do problema, tem condições de analisá-lo e resolvê-lo. O sabido é o que tem o truque da fórmula. O sabido é o esperto. É o sujeito que, por já ter feito duas vezes a mesma coisa, é capaz de resolvê-la. É um tipo de formação promovida vivamente por muitos cursinhos. A função do ensino médio, é formar o sábio. Aquele que conhece e compreende a situação.

 

Essa entrevista foi extraída do site: http://www.folhadirigida.com.br/htmls/hotsites/professor_2003/cad_05/EntDomLourencoFdg.htm

Mais informações sobre Dom Lourenço de Almeida Prado

Educador por natureza, dom Lourenço de Almeida Prado foi o reitor do Colégio São Bento que mais tempo ficou no cargo, por 46 anos. Nasceu na cidade paulista de Bica da Pedra (hoje, Itapuí), mas concluiu seus estudos e se formou em Medicina pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, em 1935. Mas foi antes, em 1931, que teve o primeiro contato com os trabalhos beneditinos, com o Centro Dom Vital, o que acabou sendo decisivo para sua opção pela vida monástica. Mais tarde, cursou Filosofia, Sociologia e Teologia. Após se formar em medicina, Dom Lourenço entrou para o Mosteiro de São Bento em 1940, e se formou sacerdote dezembro de 1946. Sua defesa por uma Educação de qualidade e a certeza de que ela é a base de uma vida mais digna para o homem, presentes nos vários artigos de sua autoria, eram a marca registrada do monge beneditino. Faleceu com quase 98 anos no dia 28 de janeiro de 2009.