O computador tornou-se um elemento normal da paisagem escolar, mas nem mesmo os professores concordam que existe uma melhoria na didática e no rendimento escolar. É uma ferramenta para que o aluno consiga acompanhar o currículo existente ou um impulso para novas metas educacionais?
A Universidade Aberta da Catalunha, acaba de publicar um dos estudos mais representativos sobre a implementação da Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC) na educação Espanhola (1).
Assinado por Javier Zabala Date: December 2, 2009
www.aceprensa.com
http://www.aceprensa.com/articulos/2009/dec/02/que-hace-ese-ordenador-en-el-aula/
Embora o título pareça polarizar o trabalho para a Internet, na verdade, o estudo se refere às TIC como um todo. Foi realizado entre 2001 e 2007, com uma seleção de 716 escolas e colégios que formaram uma amostra representativa da população espanhola, com um total de 17.575 questionários, entrevistas com diretores, professores e estudantes. É, portanto, um estudo sociológico, estatístico, que, apesar do título, é mais uma forte ênfase sobre a situação atual do que quanto às perspectivas do futuro.
O problema não é falta de computadores
Um dos primeiros temas abordados é o parque tecnológico existente nas escolas. Podemos resumir os resultados da seguinte forma:
Os dados permitem concluir que as escolas públicas estão mais bem equipados, o que contradiz a tradicional reclamação da falta de meios. Mas temos de fazer alguns esclarecimentos:
a) 45,6% dos computadores têm 6 ou mais anos de uso. Isto leva a considerar o seu desempenho como muito limitado.
b) 48,5% das escolas não têm computador nas salas de aula convencionais, mas apenas na sala de informática, o que afeta seu uso educacional.
c) 86,4% das escolas têm conexão banda larga.
d) 49,8% têm uma rede sem fio de maior ou menor alcance.
e) Os professores têm uma média de 8,28 computadores em cada centro para uso educacional fora das aulas (biblioteca, sala de professores, departamentos...) e assim podem usá-los para preparar aulas, desenvolver materiais, buscar informações, e assim por diante.
f) Tem uma média de 1,92 projetores em cada centro.
g) Metade dos centros não permite que os alunos possam acessar a internet fora do horário escolar. A outra metade sim, com diferentes restrições sobre os equipamentos disponíveis ou quanto a limitação de sites a consultar: 49,3% dos centros têm instalado um programa de proteção (filtro) contra conteúdo impróprio.
A conclusão do relatório sobre o equipamento é que "continua a ser uma prioridade a dotação e manutenção da infra-estrutura necessária, mas aparentemente já não é considerada como o primeiro problema a ser resolvido.
Os diretores percebem que apenas um terço dos professores estão motivados para utilizar as TICs na sala de aula. 31% dos professores acreditam que o uso das TIC melhora os resultados educacionais; 59% acredita que nada muda e 10% acredita que ainda prejudica.
Os professores diante dos "nativos digitais"
Quanto à integração das TIC no ensino, as opiniões dos entrevistados mostram que há ainda bastante caminho a percorrer.
69,3% dos diretores entende que a formação oferecida aos professores é boa e 59,3% que é de suficiente qualidade. Em qualquer caso, cerca de dois terços dos diretores estão satisfeitos com a formação ministrada.
59,5% dos professores afirmaram possuir as habilidades necessárias, mas apenas 43,7% se consideram capacitados para lidar com um grupo de estudantes na aula de informática.
A avaliação é que os cursos de informática, para formação de professores, está dando frutos. No entanto, entende-se que na classe e diante dos alunos “nativos digitais” pode acontecer situações embaraçosas, pois que nem todos os professores sabem como superá-las. Além disso, os coordenadores das escolas percebem que apenas um terço dos professores estão motivados para a utilização das TIC na sala de aula.
E é que as TIC não aliviam o trabalho do professor. 49,8% dos diretores e 57,7% dos professores acreditam que o tempo de preparação de uma aula com as TIC é substancialmente maior que o necessário para uma aula convencional.
Computadores nas salas de aula convencionais
O estudo sublinha que 54,3% dos professores sentem a falta de computadores nas salas de aula convencionais. O que tem a fazer um computador, digamos, no 3º ano fundamental? Há uma diferença na educação das crianças menores do ensino fundamental em relação às crianças com mais idade do ensino médio, por exemplo.
Na educação infantil, muitas vezes trabalha com "a metodologia de grupos." Há um grupo de crianças no computador, outro recortando papel colorido, outro com um quebra-cabeça... A professora simplesmente põe todos a trabalhar. Esta solução foi considerada satisfatória embora alguns fiquem surpresos pelo fato de algumas crianças pequenas saibam gerenciar perfeitamente um CD-ROM (antes de aprender a ler).
O contrário ocorre no ensino médio. Agora, o professor deseja um computador conectado à Internet e um projetor. É evidente o enriquecimento das aulas para a disciplina de ciências (ou de história da arte). E há muitas aplicações interessantes para as outras disciplinas do curso, além do professor poder criar apresentações (slides) para mostrar aos alunos.
Alfabetização Digital
É evidente a utilidade dos computadores para a gestão acadêmica e financeira dos centros, e seu uso já supôs um elevado grau de investimento.
Outro uso dos professores, sem dúvida alguma, é na melhor preparação das aulas, para informações atualizadas, mostram gráficos e imagens que ilustram as explicações e melhora o material didático à disposição dos alunos. Do mesmo modo, as TIC facilitam aos alunos a realização de trabalhos e, também, nas pesquisas.
Além disso, se no futuro o jovem profissional precisar de alguns conhecimentos de informática, além do que possa aprender por si próprio, voltará à escola para obter certa “alfabetização digital".
Não há necessidade de insistir na motivação que as TICs representam para os alunos. Essa natural motivação convém que seja explorada ao máximo.
Mas os interesses e as inclinações dos estudantes estão centralizados em questões de utilização, como usar o áudio, imagens e animações, entrar em sala de bate-papo, etc., Que não são os mais procurados no mercado de trabalho. Entretanto, o que eles precisam é o domínio de um processador de texto, planilha eletrônica, certo domínio de um banco de dados, e alguns conhecimentos do sistema operacional, instalar e remover software e periféricos, backup etc.
Nem sempre a escola está trabalhando nessa direção, mas é muito importante: saber como lidar com um tabulação, uma nota de rodapé ou uma cópia relativa de uma fórmula. São conhecimentos que o aluno vai precisar. Baixar músicas para seu MP3 irá acabar por aprender por conta própria. Não seria demais umas aulas de digitação.
Utilização pedagógica das TIC Imediata
No entanto, o que queremos enfatizar é no uso didático mais imediato das TIC. Os autores fornecem evidências de que 51,7% dos diretores e 41,2% dos professores apóiam a idéia de que as TIC colocam novos objetivos na educação. Em contrapartida, 44,5% dos diretores e 53,6% dos professores acreditam que eles deveriam fornecer um acesso mais eficiente ao currículo existente. Este é o dilema. Empate técnico.
De qualquer forma, "as TIC melhoram a qualidade da educação? 31% dos professores consideram que há melhoria dos resultados educacionais, 59% de que nada muda, e 10% que ainda piora.
Esclarecemos com um exemplo. Sou professor de matemática e vou abordar um tópico de triângulos. Levo meus alunos para a sala de informática porque eu tenho um bom programa para geometria, que pode trabalhar sobre estes aspectos: mediatrizes bissetores, centróide, e assim por diante. Os alunos adoram. Após duas semanas, vou avaliá-los.
No exame, vou apresentar problemas que são resolvidos com as fórmulas explicadas em sala de aula, papel e calculadora (não no computador). Além disso, a maioria dos alunos deixou o estudo para as vésperas do exame, e já nem se lembram do que viram no monitor do computador com o mouse, e nem fizeram anotações das explicações. E eles sabem que a aula com computadores terá muito pouca influência nas notas. Por isso, será uma boa recordação, de utilidade, apenas, aos alunos mais aplicados que conseguirão uma melhor compreensão e memorização de alguns conceitos. Talvez eu exagere, mas isso é o que se vê.
Desta forma nos referimos aos computadores possibilitarem um acesso mais eficiente ao currículo existente. Mesmo assim, o relatório afirma que 70% dos diretores e 57,3% dos professores assinalam que as TICs melhoram a qualidade da aprendizagem.
Promoção da inovação educacional
O outro lado da moeda é incentivar a inovação educativa utilizando as TIC. Dentro de uma concepção pedagógica de matriz construtivista, a finalidade do ensino é de que o aluno aprenda a aprender, e para isso a busca de informações on-line tem um poder absoluto.
Mas temos de orientar os alunos na sua aprendizagem. Alguns vão numa direção e outros em outra. Passarão muito tempo na construção do seu conhecimento, em vez de ouvir o professor em sala de aula. Os estudantes seguem o seu ritmo, aprendendo o que lhes interessa (supondo que tenham interesse em aprender). Dessa forma não se pode dar o currículo completo, nem irão adquirir uns conhecimentos comuns a todos os que são aprovados. E, ainda, nem adquirir conhecimentos básicos sobre os quais se edificariam os futuros conhecimentos.
É uma revolução, porque se a aprendizagem é diferente de aluno para aluno, então deve ser, diferente a avaliação. Trata-se de uma diferença radical na avaliação. O trabalho em grupo, ou em equipe, essencial neste ponto de vista, quebra o agrupamento atual: - já não faz mais sentido se esforçar para formar grupos de 30 alunos, mas muitas vezes será mais reduzido, e outros mais amplos, incluindo alunos de diferentes idades. Então teremos que construir escolas de uma forma diferente, não em salas de aula convencional. Da mesma forma, seria necessário ampliar a informatização das escolas. Também não tem lugar a idéia de um livro texto.
No entanto, no ensino primário e em algumas áreas é menos rígido o requisito de fornecer um currículo e isso abre mais possibilidades para a inovação que no ensino médio. No entanto, as capacidades dos alunos e a capacidade de pesquisa individual e de trabalho autônomo são menores.
Os autores do relatório apreciam uma leve estagnação no uso das TIC em outros países, a estagnação começa a ocorrer na Espanha. Poder-se-ía pensar que já existe algum centro de informática nas escolas (incluindo o software), e que os professores receberam uma formação mínima. Enquanto a revolução mencionada não for abordada, parece que a utilização das TIC na educação seguirá a mesma direção de estagnação e de que não vai se expandir indefinidamente, desde sempre dentro da caixa de surpresas que envolvem os novos desenvolvimentos tecnológicos.
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Javier Zabala é professor de matemática de escola secundária e trabalhou como consultor de informática em Madri. [j.zabala @ wanadoo.es]
NOTAS
(1) Carles Sigalés e Josep M. Momin. A integração da Internet na educação escolar espanhola: estado atual e perspectivas futuras. Planeta. Fundação Telefônica. Barcelona (2009). 200 pp. 18 €. |